quarta-feira, 8 de janeiro de 2014

Documento 1964: Para não esquecer... V

Transcrição de entrevista realizada com o Prof. José Luiz Pasin, pelo Jornal do UNISAL em maio de 2004 por conta dos 40 anos do "Golpe Militar" de 1964.

Fomos presos e acusados de subversivos

Matéria da Jornalista Bete Rabello

Professores e alunos da então Faculdade Salesiana de Filosofia, Ciências e Letras de Lorena, hoje Centro UNISAL, foram presos pelos militares, em 1970, acusados de subversão. Um deles é o professor e pesquisador José Luiz Pasin, da Unidade de Lorena.

“Eu fiz o curso de história nos anos 60, me formei em 1962, na Faculdade Salesiana de Lorena, considerada na época, uma instituição universitária de renome nacional.
Como acontecia nas universidades do país, havia uma necessidade de se discutir a realidade brasileira, os problemas sociais, reforma agrária, situação da classe operária, da universidade... tudo isso já repercutia aqui, na Faculdade Salesiana.

O curso de História era muito bem estruturado, com ótimos professores. Havia também um movimento estudantil muito forte, em Lorena e no Brasil todo. Os universitários tinham uma formação política que não existe mais hoje e, na época, a UNE – União Nacional dos Estudantes – e a – UEE – União Estadual dos Estudantes – politizavam os Centros Acadêmicos e nós de Lorena participávamos de todos os encontros e congressos.

Um dos nossos alunos, Ivo Malerba, que cursava Geografia, foi preso no famoso congresso de Ibiúna, invadido no dia 12 de outubro de 1968 pela polícia. Ele era o presidente do Centro Acadêmico de Lorena.

Em 1968, promovemos uma semana da solidariedade ao povo do Vietnã, já com a Faculdade cercada, pois havia em Lorena uma delegacia da Polícia Federal. Nesse período, funcionava o Cine-clube, que existe até hoje, fundado pela Irmã Salesiana Iracema Farina, que era professora de Sociologia na secção feminina. Na época, a Faculdade estava dividida em duas secções: a feminina e a masculina.

Depois de 1964, os militares se infiltraram nas faculdades para aprender, pois perceberam que tinham uma formação cultural e histórica muito falha, e para espionar os professores e alunos.
Eu era professor de História do Brasil, e, na época, contestava as declarações do ministro da fazenda Delfim Neto, que fazia apologia de que nós seríamos um novo Japão, aquela ufania do Brasil maior.

Foi nesse contexto de agitação política na faculdade, aulas contestadoras, debates, que nós começamos a ser vistos como subversivos, embora eu não tivesse qualquer ligação com o Partido Comunista ou o Socialista, pois nunca acreditei em ideologias.

Em 1970, já sob o governo de Emílio Garrastazu Médici, depois de várias intervenções aqui na Faculdade, várias convocações de alunos e professores para depor na Policia Federal, nós fomos presos na madrugada de 1º para 2 de novembro, e  recolhidos no quartel do 5º Regimento de Infantaria de Lorena. Da Faculdade Salesiana, fui eu, Ivo Malerba, que representava os alunos, João Bastos que fazia o curso de História. A Irmã Iracema foi detida para interrogatório, mas não ficou presa.

Ficamos presos alguns dias no quartel de Lorena, em função do boatos de que iríamos provocar uma série de atentados na região, o que era totalmente absurdo, pois nosso papel era apenas contestador.

Mas esse momento foi muito importante, porque a Faculdade teve uma postura, eu não diria revolucionária, mas uma postura humanista, que era uma característica da universidade, ou seja, ela cumpriu o seu papel de formadora de ideias, de mentalidades.

Havia uma preocupação com a formação cultural e intelectual dos alunos e era muito grande a participação dos alunos e professores nas decisões da Faculdade. Eu acho que isso foi marca desse momento da Faculdade Salesiana, da sua direção, professores e alunos, dentro desse quadro que foi o movimento revolucionário dos anos 60 e 70 liderado pelos militares e que produziu esse Brasil que conhecemos hoje.

O que mudou depois da prisão

Nós professore continuamos nossas aluas. Eu nunca mudei minha maneira de pensar em relação ao Brasil. Já do ponto de vista dos alunos, a coisa mudou. Houve uma reforma universitária muito grande, que extinguiu os Centros Acadêmicos, criando diretório, que começou a ser cerceado nas suas atividades, e a Faculdade passou por algumas mudanças na sua direção.

A partir dos anos 70, durante certo período, me afastei da Faculdade por não concordar com as posicionamentos da direção. Para mim, houve um retrocesso nessa linha humanista e contestadora Salesiana até então tivera diante de tudo o que estava acontecendo no Brasil.

Diria que, num certo momento, houve uma “adesão” da direção a tudo que estava acontecendo. Podemos justificar essa adesão no sentido de preservar a autonomia da instituição e para que não acontecessem aqui problemas maiores com os militares como ocorreu em outras faculdades.

A faculdade de ontem e de hoje

Lembro-me que nos anos 60, em plena ditadura, os alunos não só tinham interesse pelo curso que faziam, mas liam, discutiam, debatiam e cumpriam o papel universitário, que desapareceu no Brasil de hoje.


Para mim, a classe universitária brasileira é inteiramente alienada ao que acontece no Brasil. Diria também que os professores de hoje têm uma capacidade profissional, mas o aspecto contestador parece que desapareceu não só da Salesiana, mas da universidade brasileira em geral."

Maio de 2004

Material Consultado no Acervo e Biblioteca do Instituto de Estudos Valeparaibanos

Lembrando que você pode colaborar com informações enviando um e-mail para diego@iev.org.br

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