segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

A Casa Euclides da Cunha



Euclydes da Cunha teve seu primeiro contato com o Vale do Paraíba Paulista logo após sua formatura em 1892 na Escola Superior de Guerra, quando foi designado a trabalhar na Estrada de Ferro Central do Brasil, no trecho paulista da capital a cidade de Caçapava.

Em 1895 entra para a superintendência de obras publicas do Estado de São Paulo, sendo nomeado chefe do 5º Distrito de Obras Publicas do Estado, e mais tarde ao

2° distrito com sede na cidade de Guaratinguetá em 1901. Designado chefe de obras públicas opta em residir na cidade de Lorena com a esposa Ana da Cunha[1] e os filhos por conta do importante Colégio São Joaquim, afamada instituição de ensino masculino. Onde matriculou seus filhos Sólon Ribeiro da Cunha e Euclides Ribeiro da Cunha, que lá estudaram até o ano de 1905.

Neste momento a cidade de Lorena era segundo o Pesquisador Francisco Sodero Toledo[2]:

“No início do século XX Lorena era uma pacata, bucólica eprovinciana cidade localizada às margens do Rio Paraíba que ainda margeava os terrenos em frente à sua igreja matriz. A população do município era de aproximadamente 13 mil habitantes, a maioria residente na zona rural.”

O que pode ser constatado em carta que Euclydes da Cunha envia a Coelho Neto[3] falando sobre a tranqüila Lorena; “o vento sul que está aí destoando as roseiras de Campinas, sacode, neste momento, as palmeiras imperiais da minha melancólica Lorena.”

E na melancólica Lorena que ele chega como Engenheiro, profissão que só seguia por obrigação como podemos notar em trecho de carta a José Veríssimo em 12 de junho de 1903.

“Continuo na minha engenharia fatigada e errante... Felizmenteme acostumei a estudar nos trens de ferro, nos trolys e até a cavalo! É o único meio que tenho de levar adiante esta atividade dupla de chefe de operários e de homens de letras”

E sai escritor de renome, já com um lugar no “Olímpio das Letras” a Academia Brasileira de Letras ocupando a Cadeira de nº7 sucedendo Valentim Magalhães[4], cadeira que tem como patrono Castro Alves[5]. Sobre sua obra segundo Sodero Toledo:

Em Lorena ele corrigiu e reviu os originais de “Os Sertões” e recebeu o primeiro exemplar da sua obra máxima, assombrando com seu talento a bucólica Lorena, refugiando-se aturdido, durante dez dias, nos sertões de Silveiras, Cunha e São Luiz do Paraitinga. Na sua estadia na cidade recebeu a consagração nacional, nos juízos críticos de José Veríssimo, Coelho Neto, Araripe Júnior, Medeiros e Albuquerque, Leopoldo de Freitas, Sílvio Romero, Vicente de Carvalho e tantos outros.E estando em Lorena, com apenas 37 anos, foi eleito para a Academia Brasileira de Letras e para o Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, recebendo a segunda edição de “Os Sertões”, emjulho de 1903.” (SODERO,2009).

Quanto a algumas passagens do Euclydes por Lorena, o escritor Brito Broca[6] traz em seu livro “Pontos de Referencia” algumas situações que vivenciou o engenheiro-escritor em quanto esteve vivendo na cidade de Lorena, estas contadas a Brito por Lauro Moreira. Onde ele fala das superstições do autor de “Os Sertões”, Contando que certa vez que Euclydes alarmara toda a vizinhança por causa de um gato preto que estava em baixo de sua cama e de lá não queria sair, vendo naquilo mau pressagio. Outra história é que em certa vez no gabinete do Prefeito de Lorena, Euclydes referia-se encantado a certa árvore da cidade, árvore centenária, em torno da qual tecia um verdadeiro poema, quando Arnolfo Azevedo[7], que então administrava a cidade deu uma boa gargalhada e disse: “– Se o senhor souber que ontem mandei derrubar esta árvore, não servia mais para nada e estava causando ali séria atrapalhação...” O escritor ficou interdito, mostrando-se verdadeiramente desolado com a notícia.

A Casa em que viveu de Euclydes da Cunha em Lorena

Casa no início do século XX

Casa nos dias atuais

Mudando-se para Lorena então o Engenheiro Euclydes da Cunha passa residir segundo o pesquisador Francisco Sodero Toledo:

“A primeira residência, coincidência ou não, ficava no terreno onde hoje se eleva a Faculdade Salesiana, na casa do Coronel Vicente Barreiros, seu velho conhecido do Rio de Janeiro, no antigo solar do Barão de Castro Lima. A segunda residência, à rua 15 de novembro, antiga Princesa Imperial, atual Dom Bosco, arranjada pelo Dr. Arnolfo de Azevedo. Esta ficava no centro da cidade, próximo à estação da Estrada de Ferro, a menos de 50 metros do Colégio São Joaquim.”(2001)

A casa que abrigou a família de Euclydes por dois anos (1902-1903) ,segundo a Arquiteta Sonia Bueno Affonso[8], pertence ao estilo arquitetônico eclético[9] podendo-se notar que as janelas seguem desenho que se aproxima do gótico com suas bandeiras em forma de ogiva, mantendo a porta a mesma altura. Também pode-se notar que a pintura da casa na foto do inicio do século XX valoriza os detalhes em primeiro plano pintado em cor clara as molduras, pilastras, almofadas e beiral, e tom mais escuro nas paredes do segundo plano. Nesta ainda vê-se o telhado de quatro águas com telhas tipo capa e canal[10] que termina em beiral. É uma casa edificada com porões altos, comum a época e pilastras imitando colunas.

Na segunda imagem, datada dos dias atuais percebe-se a platibanda[11], que substitui o beiral, imprópria para o clima chuvoso da região, o acréscimo de ornamentos a inversão da pintura e a eliminação das bandeiras de vidros e janelas.

É também conhecida como uma casa de “eira e beira”, pois era uma casa de chão e teto.

Nesta casa pouco ficava Euclydes, pois vivia em inúmeras viagens pelo seu Distrito de Obras, tanto que em determinada ocasião o engenheiro e procurado pela senhoria da casa:

“a senhoria da casa onde morava o casal Euclides da Cunha viajou de Pindamonhangaba para receber três meses de aluguel que seu procurador em Lorena não conseguia recebê-los. Ao saber da causa da visita, Euclides, seco no trato com a proprietária, chamou perante ela a esposa e disse-lhe, antes de retirar-se: entrego quinhentos mil réis à Saninha, todo mês, para as despesas da casa. Entenda-se com ela.” (SODERO, 2009)

E foi aqui que Euclydes da Cunha organizou e corrigiu sua obra prima que segundo depoimento , ao ver os erros que continha a primeira edição do livro corrigiu um a um a canivete. Em carta ao amigo Escobar, Euclydes da Cunha descreve o seguinte:

“Tenho passado mal. Chamaste-me a atenção para vários descuidos dos meus Sertões, fui lê-lo com mais cuidado – e fiquei apavorado! Já não tenho coragem de o abrir mais. Em cada pagina o meu olhar fisga um erro, um acento importuno, uma vírgula vagabunda, um (;) impertinente... Um horror! Quem sabe isto não ira destruir todo o valor daquele pobre e estremecido livro?...”

Segundo Gama Rodrigues em referencia a Ana da Cunha “D. Sinhana, como Ana ficou conhecida na cidade, procurava compensar a ausência constante do marido com os cuidados da casa e dos filhos. Era tida como uma mãe carinhosa e cuidadosa. Era freqüentadora assídua dos atos e práticas religiosas, preferindo sempre os realizados na Igreja de São Benedito, anexa ao Colégio São Joaquim, dirigida pelos Salesianos, que ficava a poucos metros de sua residência. Freqüentava o Colégio com mais assiduidade, "talvez mais do que fosse desejado, procurando prestar no arranjo das salas e pátios, os pequenos e delicados serviços de que a sensibilidade e o gosto feminino tão férteis".(Gama Rodrigues, 1952, p. 10).

Em meio a controvérsia personalidade de Euclydes da Cunha este mesmo que se descrevia como misto celta, tapuia e grego, e que alem de engenheiro era escritor, sociólogo, repórter jornalístico, historiador, geográfo e poeta. Também encontramos apaixonado pela natureza, que aqui em Lorena também fez de cm que uma figueira da cidade passar a ser sua.

Esta figueira é minha , minha sim, em Lorena. Não é admirável? Pelo menos pretexto para .... muitas saudades e cumprimentos, quem é cordialmente, Euclydes da Cunha

No ano de 1952, por iniciativa da Faculdade Salesiana e Prefeitura Municipal foi inaugurada a Sala Euclides da Cunha que hoje, encontra-se junto ao Centro Salesiano de Pesquisas Regionais “Prof. José Luiz Pasin”, a Sala Euclides da Cunha, reúne parte da sua mobília e documentações do período que esteve vivendo nesta cidade.

Sala Euclides da Cunha - CESAPER (Centro Salesiano de Pesquisas Regionais "Prof.José Luiz Pasin)
UNISAL - Lorena - Foto: Jenyfer Ramos

Referências:

Bibliográficas:

-BROCA, Brito (1903-1961). Pontos de Referencia. São Paulo: Ministério de Educação e Cultura.

-EVANGELISTA, José Geraldo. Lorena no Século XIX. São Paulo: Governo do Estado, 1978.

-PASIN, José Luiz (org.). O Outro Euclides – O Engenheiro Euclides da Cunha no Vale do Paraíba – 1902 – 1903. Lorena, 2002 .

-NOGUEIRA. Walnice. GALOTTI, Oswaldo. Correspondência de Euclides da Cunha. São Paulo: EDUSP, 1997.

-SODERO TOLEDO, Francisco. Igreja, Estado, Sociedade e o Ensino Superior: A Faculdade Salesiana de Lorena. Taubaté: Editora Cabral, 2003.

- ___________________________ Euclides da Cunha em Lorena. In José Luiz Pasin: O Outro Euclides. Lorena: Unisal, 2002, p.149-162.

Webbibliograficas:

-Antônio Gama Rodrigues. Dr. A. Euclides da Cunha em Lorena (1902-1903). Lorena, São Paulo: F.S.F.C.L. de Lorena, 1952, em Francisco Sodero Toledo. Euclides da cunha no Vale do Paraíba (1901-1903). Disponível em www.valedoparaiba.com/terragente/artigos/art0162001.html

-Francisco Sodero Toledo. Euclides da Cunha e os Salesianos em Lorena. Disponível em www.valedoparaiba.com/terragente/artigos/art0172001.html


[1]Ana Emilia Ribeiro nasceu no Rio de Janeiro, 1871 — Rio de Janeiro, 1951, também conhecida como Anna Emilia Ribeiro da Cunha, Ana Emilia Ribeiro de Assis, ou simplesmente Anna de Assis ou Saninha, foi pivô de um dos mais célebres crimes passionais da história do Brasil. Entre 1876 a 1951, foi esposa do escritor Euclides da Cunha e, depois, do militar Dilermando de Assis.

2 – Francisco Sodero Toledo é professor e pesquisador e autor de trabalhos sobre Euclides na Cunha no Vale do Paraíba.

[3] Henrique Maximiano Coelho Neto nasceu em Caxias, 21 de fevereiro de 1864 — Rio de Janeiro, 28 de novembro de 1934) foi um escritor, político e professor brasileiro.

[4] Valentim Magalhães (Antônio V. da Costa M.), jornalista, contista, romancista e poeta, nasceu no Rio de Janeiro, RJ, em 16 de janeiro de 1859 e faleceu, na mesma cidade, em 17 de maio de 1903.

[5] Castro Alves (Antônio Frederico de C. A.), poeta, nasceu em Muritiba, BA, em 14 de março de 1847, e faleceu em Salvador, BA, em 6 de julho de 1871. É o patrono da Cadeira n. 7, por escolha do fundador Valentim Magalhães.

[6] José Brito Broca natural de Guaratinguetá, 6 de outubro de 1903 — Rio de Janeiro, 20 de agosto de 1961, foi um crítico literário e historiador brasileiro. Parte do acervo de sua biblioteca pessoal encontra-se na biblioteca do Instituto de Estudos da Linguagem da Unicamp.

[7] Arnolfo Rodrigues de Azevedo natural de Lorena, 11 de novembro de 1868 — 12 de maio de 1931, foi um político brasileiro. Foi presidente da Câmara dos Deputados e um senador durante a República Velha.

[8] Responsável pela disciplina de Técnicas Retrospectivas da Faculdade de Engenharia, Arquitetura e Urbanismo, da Universidade do Vale do Paraíba – UNIVAP e Professora Coordenadora de Educação Patrimonial do Projeto NEPA (Núcleo de Estudos Patrimoniais e Ambientais) projeto de iniciativa do IEV (Instituto de Estudos Valeparaibanos)

[9] No Brasil, a arquitetura eclética foi uma tendência dentro do chamado academicismo propagado pela Academia Imperial de Belas Artes e pela sua sucessora, a Escola Nacional de Belas Artes, ao longo do século XIX. Assim, o ensino arquitetônico acadêmico no Rio de Janeiro, que inicialmente privilegiou o neoclassicismo, mais tarde adotou o ecletismo de origem européia. Em paralelo surgiram instituições artísticas em outros lugares do Brasil também comprometidas com a arquitetura eclética, como o Liceu de Artes e Ofícios de São Paulo.Em São Paulo o ecletismo arquitetônico teve em Ramos de Azevedo seu principal nome.

[10] Também conhecida como telha colonial, a telha capa e canal é constituída de argila e tem forma côncava, são assentadas em fileiras com posição invertidas.

[11] O termo arquitectónico Platibanda designa uma faixa horizontal (muro ou grade) que emoldura a parte superior de um edifício e que tem a função de esconder o telhado.