sábado, 17 de setembro de 2011

José Brito Broca

“Conclusivamente, o que temos na literatura de Brito Broca é a essência da história, da memória e do patrimônio imaterial que necessita ser explorado, compreendido e disseminado para toda a sociedade”. Joaquim Roberto Fagundes


Escritor e jornalista José Brito Broca nasceu no dia 06 de outubro de 1903, na cidade de Guaratinguetá. Filho de André Broca e Benedita Marieta de Brito Broca, formou-se professor pela antiga Escola Normal de Guaratinguetá, hoje Escola Estadual Conselheiro Rodrigues Alves.
Sempre muito crítico, ainda quando aluno, escrevia para jornais da cidade - o “Correio Popular” e “O Farol” – que era de oposição ao Comendador Rodrigues Alves, importante político desta cidade. Em um dos artigos que escreveu para “O Farol”, fez críticas diretas à referida personalidade e se viu “obrigado” a se mudar para São Paulo em 1927. No novo endereço, passa a exercer a profissão de jornalista, mais tarde em 1937 muda-se para o Rio de Janeiro a convite de Gilberto Amado[1].
No Rio de Janeiro e em São Paulo ele escreveu para os seguintes jornais e revistas, sendo redator de alguns destes: “A Gazeta”, “Correio da Manhã”, “O Estado de São Paulo”, “Jornal das Letras”, “Revista Leitura” e “Revista do Livro”.
Com a sua obra “A Vida Literária no Brasil 1900” conquistou vários prêmios: “Prêmio Paula Brito”, da prefeitura do Distrito Federal, “Prêmio Silvio Romero”, da Academia Brasileira de Letras, “Prêmio Fabio Prado”, da União Brasileira dos Escritores e o “Prêmio Luiza Claudia de Sousa”, do Pen Clube.
Entre as obras de Brito Broca, uma se destaca para a história de Guaratinguetá por trazer as memórias do autor quanto à sua terra natal. É o que nos fala o pesquisador Francisco Sodero Toledo em seu estudo intitulado “Decadência, medo e assombrações”:
“Brito Broca, em seu livro “Memórias”, recorda Guaratinguetá da sua infância, no início do século XX. Procurou reconstruir a sua província, a sua cidade que era ao mesmo tempo rural e urbana. Por meio de suas memórias pode-se reconhecer que:
‘A cidade ainda não tinha perdido totalmente o seu jeito de vil
a e o seu contato com o campo. As ruas e os bairros ainda eram extensões das casas e os vizinhos eram meio como parentes de todos. Os bairros periféricos terminavam onde começavam os campos, os sítios, a roça. ... As mulheres cuidavam das casas. As avós contavam histórias de assombrações, do saci e do tempo dos escravos. ’ (Addeo in Sodero Toledo, 2011)
Segundo Francisco de Assis Barbosa em apresentação feita na 4º edição do livro “A Vida Literária no Brasil 1900”: “Escritor sem biografia, nada de extraordinário aconteceu em sua vida,
toda concentrada no devotamento a literatura, que foi integral e absoluto. Do ofício de ler e escrever fez sua única razão de viver”.
Conta Barbosa de uma atitude de Brito que está registrada em um diário de reflexões e reminiscências que certa vez, “Certo Escritor” - conta ele -, “pouco amigo dos livros, embora goste de publicá-los, vendo-me preocupado com determinados problemas de pesquisa literária, dizia-me: - Do
que me admiro é da paciência que você tem com a literatura.../Nada respondi, mas pensei:/ - Pois eu, do que me admiro é da paciência que a literatura tem com você”.
Brito Broca, era apaixonado pelo Rio de Janeiro, mas também mantinha uma relação muito interessante com Guaratinguetá, que na sua juventude teve de abandonar por problemas de cunho político. Segundo Barbosa:
“Essa ternura pelo Rio, que foi dele, e que é também minha, não impediu a Brito Broca, como a mim por igual acontece, de continuar, amando a cidade em que nascemos, a nossa sempre lembrada Guaratinguetá. Na sua obra, numerosas são as referências a fatos e personagens locais, o que bem indica que jamais esqueceu a sua terra”
Quanto à sua formação, o professor José Luiz Pasin diz: “Sua formação era nitidamente francesa, mas as suas leituras desconheciam fronteiras, lia autores de todos os países e sua obra revela uma cultura vastíssima aliada a uma honestidade e dedicação que honram e dignificam sua memória”.
Brito Broca, faleceu no dia 02 de agosto de 1961 e foi uma grande e inesperada perda para o meio literário brasileiro. Segundo o professor Pasin: “Sua morte trágica ocorrida a 2 de agosto de 1961, colheu de surpresa os meios literários do Brasil, abrindo profunda lacuna no setor de estudos e pesquisas literárias, que dificilmente será preenchida, pois ninguém como ele soube amar e dignificar o nome de Guaratinguetá no cenário cultural de nossa pátria. [...].
Guaratinguetá comemorou por vários anos a Semana Brito Broca, em homenagem à memória deste grande ícone da literatura brasileira, mas por alguns nos, importante polque por motivos desconhecidos, deixou de acontecer.
Este é um pequeno trabalho, que dedico ao grande imortal da nossa região.
Obras:
Vida Literária no Brasil 1900
Os Americanos
Coelho Neto, romancista
Raul Pompéia
Machado de Assis e a política e outros estudos
Horas de Leitura
Traduções entre outras:
O Conquistador, de Jean Babelón
O Romance Russo, de Melchor de Vougé
Tibério, de Gregório Maranon
História, de Heredo
Seleções, de Voltaire
O Primeiro Amor, de Turguenev
Águas de Primavera, de Turguenev
Obras Póstumas
Quando Havia província
Pontos de Referência
Memórias
Letras Francesas
Referências
BROCA, José Brito. A Vida Literária no Brasil – 1900. 5º Ed – Rio de Janeiro: José Olympio: Academia Brasileira de Letras, 2005
FAGUNDES. Joaquim Roberto. Fontes Primárias no Vale do Paraíba. Brito Broca – Literatura, Memória e História. http://valedoparaibaarquivoshistoricos.blogspot.com/2010/05/o-ano-de-2011-marca-o-cinquentenario-de.html. 11 de maio de 2010.
SODERO TOLEDO, Francisco. Decadência, medos e assombrações. Lorena, http://www.valedoparaiba.com/nossagente/estudos/decadencia.pdf
PASIN, José Luiz. José Brito Broca. In LEITE, Aydano. Vultos de Guaratinguetá. S/Ed. Guaratinguetá, 1967.



[1]Gilberto de Lima Azevedo Souza Ferreira Amado de foi um jurisconsulto, escritor polígrafo, diplomata, jornalista, político brasileiro. Foi membro da Academia Brasileira de Letras

Pharmácia Popular de Bananal


Considerada a mais antiga do Brasil, em funcionamento, a “Pharmácia Popular” de Bananal foi inaugurada em 1830 e seus ornamentos, ainda conservados, nos levam a uma viagem no tempo pois estaremos em contato com medicamentos e objetos de manipulação de época.

Fundada pelo francês Tourin Domingos Mosnier, em 1830, passou por importantes momentos históricos do nosso Vale do Paraíba, um deles a revolução liberal de 1842, movimento que teve seu estopim na vizinha cidade de Silveiras; outro foi a Revolução Constitucionalista de 1932, que podemos lembrar através de um selo que se encontra fixado na lateral de um dos armários, recordando a atuação dos proprietários da farmácia, que lá também mantiveram um pequeno acervo contendo peças dessa revolução.

Com o advento da República, os proprietários da Farmácia se viram obrigados a alterar o nome do estabelecimento de “Pharmácia Imperial” para “Pharmácia Popular”, porque, por conta da necessidade de se criar a idéia de estado republicano, o governo fez com que tanto os locais públicos como os privados substituíssem nomes, referências e símbolos que fizessem alusão ao regime imperial.

Dos detalhes do estabelecimento, o que mais nos chama a atenção são seus balcões em pinho de Riga, decorados com ânforas, contendo água colorida com anilina, a maquina registradora que ainda faz parte da decoração, os livros de receitas de diversos medicamentos da época, o rico acervo de recipientes dos componentes medicinais da época e o revestimento em ladrilhos franceses que compõem esse expressivo ambiente histórico.

O estabelecimento teve como último proprietário o Sr. Plínio Graça, que herdou a farmácia do pai Ernani Graça, que o comprara em 1922, sob a condição de não modificá-la nem se desfazer de seu acervo. Plínio Graça foi vereador e prefeito por dois mandatos da cidade de Bananal, homem que mesmo com todas as modificações que seriam necessárias para o funcionamento nos dias atuais, manteve carinhos

amente esse acervo, que é muito importante para os estudos quanto à história das farmácias no Brasil e também para conhecermos um pouco mais sobre a a evolução e as tradições dessa importante cidade de nossa região.

No dia 30 de junho o Vale do Paraíba se despediu dessa ilustre figura, o senhor Plínio Graça que faleceu aos 87 anos.

Nós , os valeparaibanos, prestamos nossas sinceras homenagens à memória desse grande cidadão que deve ser visto como exemplo por todos, para que possamos criar uma cultura de preservação e resgate de nossa história.


Fotos: Jenyfer Ramos

Texto publicado no Jornal “O Lince” – Link para acesso: http://www.jornalolince.com.br/2011/ago/pages/memoria-pharmacia.php, e acessando através do link, você tem acesso a todas as fotos de Jenyfer Ramos.

quarta-feira, 13 de julho de 2011

Chico Barbosa - Dr. Francisco de Assis Barbosa


Francisco de Assis Barbosa nasceu em 21 de janeiro de 1914 em Guaratinguetá, para uma vida de grandes conquistas no campo da intelectualidade e ocupou um lugar no “Olimpo das Letras” como membro da Academia Brasileira de Letras eleito em 19 de novembro de 1970, para a cadeira nº 13, cujo patrono é Francisco Otaviano de Almeida Rosa[1], e membro fundador, Visconde de Taunay[2].

“Autor de uma obra em que se evidencia o rigor da pesquisa e da interpretação, escreveu “A vida de Lima Barreto”, biografia completa do grande escritor urbano, além de ter compilado e anotado a edição das Obras completas do mesmo autor, com a colaboração de Antonio Houaiss e M. Cavalcanti Proença. O livro Retratos de família é um álbum de recordações dos grandes vultos da nossa cultura. Entre os vários livros desse escritor voltado aos assuntos e problemas brasileiros, de

staca-se a biografia Juscelino Kubitschek - Uma revisão na política brasileira, e prefácios à obra de vários autores, os quais constituem verdadeiros ensaios.” (ABL, 2011)

Sua atividade como intelectual brasileiro começou em 1931 quando entrou para a Faculdade Nacional de Direito, da Universidade Federal do Rio de Janeiro, intensificando-se a partir de 1934, quando passa a escrever para os principais jornais cariocas e revistas do período: “A Noite” (1934), “O Imparcial” (1935), “A Noite Ilustrada”, “Vamos Ler”, “Carioca”, “Diretrizes” (1936-1942). Foi, também, colaborador da Revista “Globo”, redator do “Correio da Manhã” (1944), do “Diário Carioca”, da “Folha da Manhã” e da “Última Hora”, (1951-1956). E ainda, editor do Jornal do Brasil por ocasião do IV Centenário da Cidade do Rio de Janeiro, em 1965.

Antonio Houaiss, José Luiz Pasin e Francisco de Assis Barbosa

Exerceu concomitante ao trabalho jornalístico, outras atividades no campo da educação, do direito, do magistério e trabalhos burocráticos em órgãos do governo federal. Em 1934, exerceu a função de Inspetor Federal, junto a Escola Técnica Nacional e à Escola Técnica Mackenzie, e em 1942-1943, técnico em educação, no Instituto Nacional do Livro, preparando textos de autores brasileiros. Foi assistente da Faculdade Nacional de Filosofia (1944-1945), e no mesmo ano, fundou a Associação Brasileira de Escritores. De 1936 a 1938, como advogado recém formado, o cargo de Delegado de Polícia nas cidades de Aparecida-SP e São Luis do Paraitinga-SP.

Em 1956 passou a fazer parte do gabinete da Presidência da República, no governo de Juscelino Kubitschek, chegando a chefe do serviço de documentação; bem como as atividades de advogado do Estado da Guanabara e membro do conselho deliberativo da Associação Brasileira de Imprensa (ABI); assessor editorial da “Encyclopaedia Britannica do Brasil”, coordenador da seção de História do Brasil da Enciclopédia Barsa (1961-1965), co-editor da Enciclopédia Mirador Internacional (1971) e diretor da Revista do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, a partir de 1966.

Foi vice-presidente da Fundação Padre Anchieta, TV Cultura de São Paulo, no ano 1975, sendo contratado, também, pelo Governo de São Paulo, para elaborar o plano de remodelação do sistema arquivístico do Estado de São Paulo, tendo participado do simpósio de arquivistas franceses, Archives Nationales, em Paris, no ano de 1976.

Em 1977 passou a integrar o corpo de diretores da Fundação Casa de Rui Barbosa, chefiando o Centro de Estudos Históricos.

Participante de entidade e órgãos culturais, foi nomeado para o Conselho Federal de Cultura, passando a integrar a Câmara de Letras em 1975; eleito presidente da Comissão de Literatura de São Paulo, em 1976, e membro do CONDEPHAT, em São Paulo, como representante do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, no mesmo ano.


Autógrafo de Francisco de Assis Barbosa - Para o casal Gloria e Eboli - 1971


Obras:

Os homens não falam demais, reportagem, em colaboração com Joel Silveira(1942)

A vida de Lima Barreto, biografia (1952)

Retratos de família, ensaios (1954)

Machado de Assis em miniatura, biografia (1957)

Encontro com Roquette-Pinto, ensaio (1957)

Achados do vento, ensaio (1958)

Lima Barreto, introdução e antologia (1960)

Juscelino Kubitschek Uma revisão na política brasileira, biografia (1962)

Nominata carioca, história (1965)

História do povo brasileiro (fase nacional), em colaboração com Afonso Arinos de Melo Franco e Antonio Houaiss (1968)

A hora e a vez de Bethencourt da Silva, discurso (1972)

Santos Dumont inventor, biografia (1973)

Bernardo Guimarães: a viola e o sertão (1975)

A cadeira de Evaristo da Veiga, discurso (1981)

Os melhores poemas de Manuel Bandeira, organização e introdução (1984).

Referências:

LEITE. Aydano. Guaratinguetá e seus vultos – Para a História da Terra das Garças Brancas. Guaratinguetá, vol.2, 1967.

http://www.academia.org.br/



[1] Advogado, jornalista, político, diplomata e poeta, nasceu no Rio de Janeiro-RJ, em 26 de junho de 1826, e faleceu em 28 de junho de 1889, na mesma cidade.

[2] Engenheiro militar, professor, político, historiador, sociólogo, romancista e memorialista, nasceu no Rio de Janeiro- RJ, em 22 de fevereiro de 1843, e faleceu em 25 de janeiro de 1899, na mesma cidade.

sexta-feira, 24 de junho de 2011

XXV Simpósio de História do Vale do Paraíba

Confira a programação do XXV Simpósio de História do Vale do Paraíba

30/06/2011 – Quinta-Feira

Local: Centro UNISAL – Campus São Joaquim UU. Lorena – Teatro São Joaquim

17h – Credenciamento

19h – Apresentação musical: Davi Coura Borges e Marcelo Rodrigues Egydio Lopes

19h30 – Abertura Solene do XXV Simpósio de História do Vale do Paraíba

20h – Vídeo com a História do Simpósio

20h30 – Mesa de Debates: Arquivos Históricos do Vale – Thereza Maia, Joaquim Roberto Fagundes e Claudionor Rosas.

21h30h – Palestra: Genealogia e Tecnologia (os novos rumos da pesquisa) – Walter A. Olivas do Site My Heritage.

22h – Encerramento do 1° Dia de Simpósio.



01/07/2011 – Sexta- Feira

Manhã

8h30 – Apresentação Violinos: Marcelo Rodrigues Egydio Lopes

9h – Inicio das Comunicações: Auditório P. Carlos Leôncio da Silva e Sala I5

12h30 – Intervalo – Almoço

Tarde

14h – Retorno as Comunicações: Auditório P. Carlos Leôncio da Silva e Sala I5

16h30 – Visita pelo “Quadrilátero Sagrado de Lorena” – Visita guiada: Prof. Ms. Francisco Sodero Toledo.

Noite:

19h – Apresentação cultural

Casa da Cultura de Lorena

02/07/2011 – Sábado

Local: Centro UNISAL – Campus São Joaquim UU. Lorena – Teatro São Joaquim

9h Vídeo: História de Documentação: Roberto Guião

9h35 - Palestra: : “A importância dos arquivos para pesquisa e o ensino na perspectiva do século XXI" Prof. Dr. Renato Leite Marcondes

10h40 – Cerimônia de encerramento

Entrega do Prêmio Marcelo de Ipanema

Entrega dos Prêmios aos melhores trabalhos apresentados

Ato do IEV para escolha do tema e da sede para o Simpósio de 2012.

13h – Almoço de confraternização por adesão

sábado, 14 de maio de 2011

UNISAL sediará XXV Simpósio de História do Vale do Paraíba

Neste ano o IEV – Instituto de Estudos Valeparaibanos realizará o XXV Simpósio de História com o tema "A importância dos arquivos para pesquisa e o ensino na perspectiva do século XXI" em Parceria com o Centro UNISAL – Campus São Joaquim - UU.Lorena.

O Simpósio será realizado nos dia 30 de junho 01 e 02 de julho e terá em sua programação palestras, comunicações e apresentações culturais.

As inscrições para comunicações oral e painel terão prazo de entrega devendo ser realizada até o dia 03 de junho de 2010.

As inscrições através do site: www.valedoparaiba.com/simposio

Participe!!!

segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

A Casa Euclides da Cunha



Euclydes da Cunha teve seu primeiro contato com o Vale do Paraíba Paulista logo após sua formatura em 1892 na Escola Superior de Guerra, quando foi designado a trabalhar na Estrada de Ferro Central do Brasil, no trecho paulista da capital a cidade de Caçapava.

Em 1895 entra para a superintendência de obras publicas do Estado de São Paulo, sendo nomeado chefe do 5º Distrito de Obras Publicas do Estado, e mais tarde ao

2° distrito com sede na cidade de Guaratinguetá em 1901. Designado chefe de obras públicas opta em residir na cidade de Lorena com a esposa Ana da Cunha[1] e os filhos por conta do importante Colégio São Joaquim, afamada instituição de ensino masculino. Onde matriculou seus filhos Sólon Ribeiro da Cunha e Euclides Ribeiro da Cunha, que lá estudaram até o ano de 1905.

Neste momento a cidade de Lorena era segundo o Pesquisador Francisco Sodero Toledo[2]:

“No início do século XX Lorena era uma pacata, bucólica eprovinciana cidade localizada às margens do Rio Paraíba que ainda margeava os terrenos em frente à sua igreja matriz. A população do município era de aproximadamente 13 mil habitantes, a maioria residente na zona rural.”

O que pode ser constatado em carta que Euclydes da Cunha envia a Coelho Neto[3] falando sobre a tranqüila Lorena; “o vento sul que está aí destoando as roseiras de Campinas, sacode, neste momento, as palmeiras imperiais da minha melancólica Lorena.”

E na melancólica Lorena que ele chega como Engenheiro, profissão que só seguia por obrigação como podemos notar em trecho de carta a José Veríssimo em 12 de junho de 1903.

“Continuo na minha engenharia fatigada e errante... Felizmenteme acostumei a estudar nos trens de ferro, nos trolys e até a cavalo! É o único meio que tenho de levar adiante esta atividade dupla de chefe de operários e de homens de letras”

E sai escritor de renome, já com um lugar no “Olímpio das Letras” a Academia Brasileira de Letras ocupando a Cadeira de nº7 sucedendo Valentim Magalhães[4], cadeira que tem como patrono Castro Alves[5]. Sobre sua obra segundo Sodero Toledo:

Em Lorena ele corrigiu e reviu os originais de “Os Sertões” e recebeu o primeiro exemplar da sua obra máxima, assombrando com seu talento a bucólica Lorena, refugiando-se aturdido, durante dez dias, nos sertões de Silveiras, Cunha e São Luiz do Paraitinga. Na sua estadia na cidade recebeu a consagração nacional, nos juízos críticos de José Veríssimo, Coelho Neto, Araripe Júnior, Medeiros e Albuquerque, Leopoldo de Freitas, Sílvio Romero, Vicente de Carvalho e tantos outros.E estando em Lorena, com apenas 37 anos, foi eleito para a Academia Brasileira de Letras e para o Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, recebendo a segunda edição de “Os Sertões”, emjulho de 1903.” (SODERO,2009).

Quanto a algumas passagens do Euclydes por Lorena, o escritor Brito Broca[6] traz em seu livro “Pontos de Referencia” algumas situações que vivenciou o engenheiro-escritor em quanto esteve vivendo na cidade de Lorena, estas contadas a Brito por Lauro Moreira. Onde ele fala das superstições do autor de “Os Sertões”, Contando que certa vez que Euclydes alarmara toda a vizinhança por causa de um gato preto que estava em baixo de sua cama e de lá não queria sair, vendo naquilo mau pressagio. Outra história é que em certa vez no gabinete do Prefeito de Lorena, Euclydes referia-se encantado a certa árvore da cidade, árvore centenária, em torno da qual tecia um verdadeiro poema, quando Arnolfo Azevedo[7], que então administrava a cidade deu uma boa gargalhada e disse: “– Se o senhor souber que ontem mandei derrubar esta árvore, não servia mais para nada e estava causando ali séria atrapalhação...” O escritor ficou interdito, mostrando-se verdadeiramente desolado com a notícia.

A Casa em que viveu de Euclydes da Cunha em Lorena

Casa no início do século XX

Casa nos dias atuais

Mudando-se para Lorena então o Engenheiro Euclydes da Cunha passa residir segundo o pesquisador Francisco Sodero Toledo:

“A primeira residência, coincidência ou não, ficava no terreno onde hoje se eleva a Faculdade Salesiana, na casa do Coronel Vicente Barreiros, seu velho conhecido do Rio de Janeiro, no antigo solar do Barão de Castro Lima. A segunda residência, à rua 15 de novembro, antiga Princesa Imperial, atual Dom Bosco, arranjada pelo Dr. Arnolfo de Azevedo. Esta ficava no centro da cidade, próximo à estação da Estrada de Ferro, a menos de 50 metros do Colégio São Joaquim.”(2001)

A casa que abrigou a família de Euclydes por dois anos (1902-1903) ,segundo a Arquiteta Sonia Bueno Affonso[8], pertence ao estilo arquitetônico eclético[9] podendo-se notar que as janelas seguem desenho que se aproxima do gótico com suas bandeiras em forma de ogiva, mantendo a porta a mesma altura. Também pode-se notar que a pintura da casa na foto do inicio do século XX valoriza os detalhes em primeiro plano pintado em cor clara as molduras, pilastras, almofadas e beiral, e tom mais escuro nas paredes do segundo plano. Nesta ainda vê-se o telhado de quatro águas com telhas tipo capa e canal[10] que termina em beiral. É uma casa edificada com porões altos, comum a época e pilastras imitando colunas.

Na segunda imagem, datada dos dias atuais percebe-se a platibanda[11], que substitui o beiral, imprópria para o clima chuvoso da região, o acréscimo de ornamentos a inversão da pintura e a eliminação das bandeiras de vidros e janelas.

É também conhecida como uma casa de “eira e beira”, pois era uma casa de chão e teto.

Nesta casa pouco ficava Euclydes, pois vivia em inúmeras viagens pelo seu Distrito de Obras, tanto que em determinada ocasião o engenheiro e procurado pela senhoria da casa:

“a senhoria da casa onde morava o casal Euclides da Cunha viajou de Pindamonhangaba para receber três meses de aluguel que seu procurador em Lorena não conseguia recebê-los. Ao saber da causa da visita, Euclides, seco no trato com a proprietária, chamou perante ela a esposa e disse-lhe, antes de retirar-se: entrego quinhentos mil réis à Saninha, todo mês, para as despesas da casa. Entenda-se com ela.” (SODERO, 2009)

E foi aqui que Euclydes da Cunha organizou e corrigiu sua obra prima que segundo depoimento , ao ver os erros que continha a primeira edição do livro corrigiu um a um a canivete. Em carta ao amigo Escobar, Euclydes da Cunha descreve o seguinte:

“Tenho passado mal. Chamaste-me a atenção para vários descuidos dos meus Sertões, fui lê-lo com mais cuidado – e fiquei apavorado! Já não tenho coragem de o abrir mais. Em cada pagina o meu olhar fisga um erro, um acento importuno, uma vírgula vagabunda, um (;) impertinente... Um horror! Quem sabe isto não ira destruir todo o valor daquele pobre e estremecido livro?...”

Segundo Gama Rodrigues em referencia a Ana da Cunha “D. Sinhana, como Ana ficou conhecida na cidade, procurava compensar a ausência constante do marido com os cuidados da casa e dos filhos. Era tida como uma mãe carinhosa e cuidadosa. Era freqüentadora assídua dos atos e práticas religiosas, preferindo sempre os realizados na Igreja de São Benedito, anexa ao Colégio São Joaquim, dirigida pelos Salesianos, que ficava a poucos metros de sua residência. Freqüentava o Colégio com mais assiduidade, "talvez mais do que fosse desejado, procurando prestar no arranjo das salas e pátios, os pequenos e delicados serviços de que a sensibilidade e o gosto feminino tão férteis".(Gama Rodrigues, 1952, p. 10).

Em meio a controvérsia personalidade de Euclydes da Cunha este mesmo que se descrevia como misto celta, tapuia e grego, e que alem de engenheiro era escritor, sociólogo, repórter jornalístico, historiador, geográfo e poeta. Também encontramos apaixonado pela natureza, que aqui em Lorena também fez de cm que uma figueira da cidade passar a ser sua.

Esta figueira é minha , minha sim, em Lorena. Não é admirável? Pelo menos pretexto para .... muitas saudades e cumprimentos, quem é cordialmente, Euclydes da Cunha

No ano de 1952, por iniciativa da Faculdade Salesiana e Prefeitura Municipal foi inaugurada a Sala Euclides da Cunha que hoje, encontra-se junto ao Centro Salesiano de Pesquisas Regionais “Prof. José Luiz Pasin”, a Sala Euclides da Cunha, reúne parte da sua mobília e documentações do período que esteve vivendo nesta cidade.

Sala Euclides da Cunha - CESAPER (Centro Salesiano de Pesquisas Regionais "Prof.José Luiz Pasin)
UNISAL - Lorena - Foto: Jenyfer Ramos

Referências:

Bibliográficas:

-BROCA, Brito (1903-1961). Pontos de Referencia. São Paulo: Ministério de Educação e Cultura.

-EVANGELISTA, José Geraldo. Lorena no Século XIX. São Paulo: Governo do Estado, 1978.

-PASIN, José Luiz (org.). O Outro Euclides – O Engenheiro Euclides da Cunha no Vale do Paraíba – 1902 – 1903. Lorena, 2002 .

-NOGUEIRA. Walnice. GALOTTI, Oswaldo. Correspondência de Euclides da Cunha. São Paulo: EDUSP, 1997.

-SODERO TOLEDO, Francisco. Igreja, Estado, Sociedade e o Ensino Superior: A Faculdade Salesiana de Lorena. Taubaté: Editora Cabral, 2003.

- ___________________________ Euclides da Cunha em Lorena. In José Luiz Pasin: O Outro Euclides. Lorena: Unisal, 2002, p.149-162.

Webbibliograficas:

-Antônio Gama Rodrigues. Dr. A. Euclides da Cunha em Lorena (1902-1903). Lorena, São Paulo: F.S.F.C.L. de Lorena, 1952, em Francisco Sodero Toledo. Euclides da cunha no Vale do Paraíba (1901-1903). Disponível em www.valedoparaiba.com/terragente/artigos/art0162001.html

-Francisco Sodero Toledo. Euclides da Cunha e os Salesianos em Lorena. Disponível em www.valedoparaiba.com/terragente/artigos/art0172001.html


[1]Ana Emilia Ribeiro nasceu no Rio de Janeiro, 1871 — Rio de Janeiro, 1951, também conhecida como Anna Emilia Ribeiro da Cunha, Ana Emilia Ribeiro de Assis, ou simplesmente Anna de Assis ou Saninha, foi pivô de um dos mais célebres crimes passionais da história do Brasil. Entre 1876 a 1951, foi esposa do escritor Euclides da Cunha e, depois, do militar Dilermando de Assis.

2 – Francisco Sodero Toledo é professor e pesquisador e autor de trabalhos sobre Euclides na Cunha no Vale do Paraíba.

[3] Henrique Maximiano Coelho Neto nasceu em Caxias, 21 de fevereiro de 1864 — Rio de Janeiro, 28 de novembro de 1934) foi um escritor, político e professor brasileiro.

[4] Valentim Magalhães (Antônio V. da Costa M.), jornalista, contista, romancista e poeta, nasceu no Rio de Janeiro, RJ, em 16 de janeiro de 1859 e faleceu, na mesma cidade, em 17 de maio de 1903.

[5] Castro Alves (Antônio Frederico de C. A.), poeta, nasceu em Muritiba, BA, em 14 de março de 1847, e faleceu em Salvador, BA, em 6 de julho de 1871. É o patrono da Cadeira n. 7, por escolha do fundador Valentim Magalhães.

[6] José Brito Broca natural de Guaratinguetá, 6 de outubro de 1903 — Rio de Janeiro, 20 de agosto de 1961, foi um crítico literário e historiador brasileiro. Parte do acervo de sua biblioteca pessoal encontra-se na biblioteca do Instituto de Estudos da Linguagem da Unicamp.

[7] Arnolfo Rodrigues de Azevedo natural de Lorena, 11 de novembro de 1868 — 12 de maio de 1931, foi um político brasileiro. Foi presidente da Câmara dos Deputados e um senador durante a República Velha.

[8] Responsável pela disciplina de Técnicas Retrospectivas da Faculdade de Engenharia, Arquitetura e Urbanismo, da Universidade do Vale do Paraíba – UNIVAP e Professora Coordenadora de Educação Patrimonial do Projeto NEPA (Núcleo de Estudos Patrimoniais e Ambientais) projeto de iniciativa do IEV (Instituto de Estudos Valeparaibanos)

[9] No Brasil, a arquitetura eclética foi uma tendência dentro do chamado academicismo propagado pela Academia Imperial de Belas Artes e pela sua sucessora, a Escola Nacional de Belas Artes, ao longo do século XIX. Assim, o ensino arquitetônico acadêmico no Rio de Janeiro, que inicialmente privilegiou o neoclassicismo, mais tarde adotou o ecletismo de origem européia. Em paralelo surgiram instituições artísticas em outros lugares do Brasil também comprometidas com a arquitetura eclética, como o Liceu de Artes e Ofícios de São Paulo.Em São Paulo o ecletismo arquitetônico teve em Ramos de Azevedo seu principal nome.

[10] Também conhecida como telha colonial, a telha capa e canal é constituída de argila e tem forma côncava, são assentadas em fileiras com posição invertidas.

[11] O termo arquitectónico Platibanda designa uma faixa horizontal (muro ou grade) que emoldura a parte superior de um edifício e que tem a função de esconder o telhado.