sábado, 3 de julho de 2010

OS PRIMEIROS TEMPOS DO CAFÉ

O café entrou no Brasil em 1727, trazido pelo Sargento mor Francisco de Melo Palheta. E a partir da segunda metade do século XVIII já se encontrava no Rio de Janeiro[1] e em São Paulo.
Na Capitania do Rio de Janeiro, o café é cultivado primeiramente na cidade do Rio de Janeiro e na baixada fluminense (MARTINS, 1990: 7). Posteriormente nas vilas de Vassouras, Valença e Barra Mansa, e, em 1782, segundo Taunay, em Rezende[2] (COELHO, 1984: 51).
Na região paulista as notícias são variadas e conflitantes, entre os autores e entre esses e as informações documentais da época.
Milliet afirma que por volta de 1780 não se cogitava em café na região e que somente em 1798 ele aparece na pauta das exportações, em ínfima quantidade - apenas sete sacas - (1982: 16). Taunay, por outro lado, fala em franca produção em 1785 (COELHO, 1984: 50) e o Marechal Arouche, em 1795, na existência de muitas plantações no planalto paulista, inclusive na própria Piratininga (BAPTISTA FILHO, 1952: 2)[3]. Nos Maços de População, porém o que se vê em franca atividade são apenas engenhos de cana, criação de animais e o cultivo de alimentos de subsistência.
Parece coerente aplicar para São Paulo, em especial no vale do Paraíba, a assertiva utilizada por Evangelista (1978: 95) e Marcondes (1998: 64) ao referir-se sobre o café no município de Lorena: “a cultura do café estava penetrando de maneira desigual...” e coexistirá com a cana-de-açúcar, a aguardente e os tradicionais produtos de subsistência (milho, arroz, feijão e farinha de mandioca), o algodão e o fumo. E, ao mesmo tempo, seguir a lógica, defendida pela maioria dos autores, que a partir de Rezende, cultivado em maior escala, o café seguiu em direção a Bananal, São José do Barreiro e Areias, no itinerário do “caminho novo”, e daí para as região de Lorena, no rumo da antiga Estrada Real.
Em Areias aparece por volta de 1790 e, em Bananal, nos princípios do século XIX (COELHO, 1984: 51), também em escala reduzida.
Em Lorena intensifica-se a partir da década de 1820, como principal cultura de exportação e de maior dinamismo (MARCONDES, 1998: 66), onde o produto encontrou solo propício na região do Porto do Meira, Embaú, Limoeiro e Registro Velho, à margem esquerda do Paraíba, até a serra da Mantiqueira (EVANGELISTA, 1978: 93).
O apogeu ocorreria entre os anos de 1854 e 1886 (MILLIET, 1982: 34), com destaque para as cidades de Bananal e Areias como principais produtoras, suplantado outros produtos na pauta das exportações (Tabela 1).




ESTRUTURA DA FAZENDA DE CAFÉ

O historiador Carlos Eugênio Marcondes de Moura, realizou na década de 1970, um intenso levantamento sobre as principais fazendas de café no Vale do Paraíba, com ênfase nas propriedades do vale histórico, mostrando como estava montada a estrutura dessas unidades produtoras, verdadeiros centros independentes refletidos nos inventários de época (MOURA, 2002: 150-156). Tomando como base tal levantamento pode-se dizer que estavam divididas da seguinte forma: edifícios e casas de serviços; edificações e implementos de beneficiar café; casas de morada; senzalas; tulhas e paióis; engenhos de cana, moinhos e prensas; enfermarias e boticas, edificações mistas (selaria, marcenaria e malaria) e tenda de ferreiro. Além destas, contava-se ainda com terreiros para secagem do café e casas para agregados.
Toda essa divisão poderia ser classificada em: núcleo industrial (terrenos, tulhas e casas de máquinas); viveiros e casas de vegetação; núcleos habitacionais (casa-grande, senzala e colônia); a arquitetura do cafezal, influenciada pela técnica de maquinário agrícola, e também pelas condições sócio-econômicas e ecológicas; e os edifícios e instalações destinados a abrigar atividades complementares e suplementares da fazenda (FERRÃO, p, 7).
A distribuição destes ao longo da área, constituía num quase autêntico feudo medieval, com a presença, acrescida muitas vezes, por uma pequena capela ou tão somente um oratório particular[4], tudo cercado por muro de taipa ou de cerca natural. Em geral, o complexo era desenhado em quadra e ao redor agregavam-se apêndices, como novos terreiros e edificações (FERRÃO, P. 7).
Esses prédios, em sua maioria, eram construídos em taipa de pilão (PASIN, 2007: 10), principalmente aqueles erigidos na primeira metade do século XIX, com grossas paredes e madeiras robustas de lei, com destaque para as sedes das fazendas, que eram as de melhor acabamento interno e de maior dimensão, com diversas divisões internas e assobradadas[5]. Eram concebidos no sentido de organizar os espaços e as formas dos sítios, planejarem o layout do cafezal, implantando-o nas encostas dos morros, sem a preocupação com o trato mecanizado, nem com o plantio em nível, e desenhar a grande quantidade de instalações complementares e suplementos, destinadas ao abastecimento e a manutenção de uma unidade de produção quase autárquica (FERRÃO, p. 7).
Posteriormente, a sede da fazenda foi construída de alvenaria – tijolos, telhas e madeira, retirada em grande parte das matas da propriedade. No entorno alqueires de mata nativa eram conservados para proteger as cabeceiras dos cursos d’água, que cruzavam a fazenda, além de ser uma preciosa fonte de madeira e lenha. A água era proveniente de nascentes próximas ou então de poços. A roda d’água supria a necessidade de energia (BAPTISTA FILHO, 1952: 6).
As casas grandes eram dotadas internamente de grandes salões e pequenas alcovas sem ventilação, e externamente, de terraços e alpendres ao centro, ladeados por escadarias, pomares e hortas. Eram construídas em locais bem drenados e expostos ao sol, porém próximas a um córrego (FERRÃO, 7).
Quanto às senzalas, era o significado de autonomia para o controle de vários aspectos da vida material e cultural do escravo. A senzala era o escravo (MARQUESE, 2005: 166).
Existiam três tipos de vivenda escrava: as senzalas de “pavilhão”, edifício único com pequenos recintos ou cubículos separados para os escravos solteiros e casados; as senzalas de “barracão”, onde viveriam escravos e escravas solteiros em grandes recintos separados; e as senzalas “cabanas”, onde viveriam escravos solteiros e casados do mesmo sexo (APUD, p. 167).
Principalmente nas senzalas cabanas, os cativos teriam acrescido no Brasil várias técnicas de construção empregadas em seu continente de origem, como o uso de paus de forquilha para a sustentação da cobertura, a adoção de um formato retangular para as cabanas, com teto de duas águas e cômodos pequenos e ausência de janelas. A cabana, para o escravo, não era o local de moradia no sentido burguês, mas apenas o local do sono ou do abrigo contra as variações de tempo; o habitat, portanto, se desenrolaria antes no entorno da cabana do que no seu interior (APUD, p. 167).
Existia, ainda, a senzala em quadra, isto é, edifícios contínuos erigidos em formato retangular e subdivididos em compartimentos ou cubículos, todos voltados para um terreiro ou pátio com entrada única guardada por um portão de ferro (APUD, p. 167). Caracterizava-se por seu isolamento, garantido por meio de sua disposição retangular e muito utilizada no Vale do Paraíba entre 1840 e 1880.
E, também as choças, que eram casebres que seguiam os padrões africanos de moradia e parece ter sido também o modelo utilizado até a 4ª década do século XIX no Vale do Paraíba (APUD, p. 172).
A partir de 1847, sobre senzalas vai aparecer recomendações sobre a construção de senzalas, presentes no trabalho de Francisco Peixoto de Lacerda Werneck (Barão de Paty do Alferes), que recomendava principalmente o cuidado com a saúde dos escravos e vigilância estreita sobre eles. Deveria acomodar quatro escravos solteiros, e no caso de casais, marido e mulher com filhos, conter 24 palmos quadrados e uma varanda de oito palmos de largo em seu cumprimento, voltada para a quadra do terreiro (APUD, p. 173).

Referências:

BAPTISTA FILHO, Olavo. A fazenda de café em São Paulo. Rio de Janeiro: Serviço de informação Agrícola, 1952.
COELHO, Helvécio Vasconcelos de Castro. Vila de Santo Antônio de Guaratinguetá. In: Revista da Asbrap, nº 08, 2004.
COELHO, Lucinda Coutinho de Mello. Ensaio sócio-econômico de áreas valeparaibanas. Rio de Janeiro: Asa Artes Gráficas, 1984.
EGAS, Eugênio (org.). Os Municípios Paulistas. São Paulo: Seção de Obras D’ Estado de São Paulo, 1925.
EVANGELISTA, José Geraldo. Lorena no Século XIX. São Paulo: Governo do Estado de São Paulo, 1978. (Coleção Paulística, 7)
FERRÃO, André Munhoz de Argollo. A Fazenda Cafeeira. http://www2.uol.com.br/historiaviva/artigos/a_fazenda_cafeeira_7.html. Acesso em: 03 nov. 2007, 9:45:27.
HERRMANN, Lucilla. Evolução da Estrutura Social de Guaratinguetá num período de trezentos anos. São Paulo: Revista de Administração/USP, 1948.
MARCONDES, Renato Leite. A arte de acumular na economia cafeeira: Vale do Paraíba - Século XIX. Lorena-SP: Stiliano, 1998.
MARQUESE, Rafael de Bivar. Moradia Escrava na Área do Tráfico Ilegal: senzalas rurais no Brasil e em Cuba, c. 1830-1860. In: Anais do Museu Paulista: História e Cultura Material. n º 2, v. 13, jul-dez. 2005.
MARTINS, Ana Luiza. Império do Café: a grande lavoura no Brasil - 1850-1890. 3. ed., São Paulo: Atual, 1990.
MILLIET, Sergio. Roteiro do Café e outros ensaios: contribuição para o estudo da história econômica e social do Brasil. 4. ed., São Paulo: Hucitec, 1982. (Estudos Rurais).
MOTTA, José Flávio. Corpos Escravos, Vontades Livres: posse de cativos e família escrava em Bananal - 1801-1829. São Paulo: Annablume/Fapesp, 1999.
MOTTA Sobrinho, Alves. A Civilização do Café. São Paulo: Editora Brasiliense, 1967.
MOURA, Carlos Eugênio Marcondes de. O Visconde de Guaratinguetá – Um titular do café no Vale do Paraíba. 2. ed., São Paulo: Studio Nobel, 2002.
PASIN, José Luiz. Os Barões do Café - Titulares do Império no Vale do Paraíba Paulista. Aparecida-SP: Vale Livros, 2001.
______________. Vale do Paraíba: história e cultura. Lorena-SP: Gráfica e Editora Santa Tereza, 2007.
[1] Roberto Simonsen, citado por Motta, refere-se ao Desembargador João Alberto Castelo Branco, como o responsável por trazer, por volta de 1770, as primeiras mudas de café para o Rio de Janeiro (MOTTA, 1999: 48).
[2] Alves Motta Sobrinho, com base em Taunay, refere-se ao café em Rezende citando o relato de um antigo morador de Bananal, Joaquim Pinto, que dizia ter sido feita a primeira plantação na região naquele ano (MOTTA SOBRINHO, 1968: 23).
[3] No declino do século XVIII, por boa parte do Vale do Paraíba, havia cafezais em locais como Guaratinguetá, Taubaté, Bananal, Pindamonhangaba e Jacareí. “Terras ainda não utilizadas, fertilíssimas, proporcionaram magníficas produções anuais, que eram negociadas no portos do Rio e Ubatuba. Nessa época não havia ainda qualquer ligação dessa região com a capital da província ou mesmo com Santos, de sorte que o porto de Ubatuba, no litoral paulista, desempenhou durante algum tem papel de relevo no escoamento e da produção obtida nas fazendas do vale” (BAPTISTA Filho, 1952: 1).
[4] O oratório era uma particularidade muito presente nas sedes das fazendas, fruto da forte influência religiosa no país, sendo um local especialmente reservado para a realização de missas, casamentos e batizados, desde que tivesse Breve Apostólico expedido pelo bispo. Segundo o pesquisador Joaquim Roberto Fagundes documentos dessa natureza podem ser encontrados no Arquivo da Cúria Metropolitana de São Paulo.
[5] As construções que predominavam são aquelas de dois pavimentos, com pé direito de 4 metros. São sobradões amplos, de construção sólida, mas sem requintes de acabamento. No térreo ficam o escritório, o depósito e outros serviços, no superior os quartos de dormir, sala de jantar, cozinha, dispensa e banheiro. No exterior possuem varanda com escada (BAPTISTA FILHO, 1952: 6).

2 comentários:

  1. Prof. Diego,
    Parabéns pelo blog. Eu e meus alunos estamos seguindo. Tudo de bom e abraços fraternos de Bananal.
    Roberta

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  2. Prezado Diego
    Resende é foco originário do plantio econômico do café no vale do Paraíba e
    nos planaltos do sul, através de pequenas e médias propriedades. Segundo Oliveira
    Vianna: “ há a diretriz de Rezende ,donde se originam as grandes culturas do vale
    do Paraíba, Mata Mineira e dos chapadões paulistas. É ,pois, em território
    fluminense que a cultura do cafeeiro faz as suas pioneiras experiências, dá a seus
    pioneiros passos de vitalidade e lucratividade , organiza-se, e prepara-se para
    conquista dos grandes plateaux do interior. O êxito inicial das primeiras tentativas no
    nosso território, principalmente no foco de Rezende, exerceu certamente sobre o
    destino da grande cultura uma influência decisiva: tivesse sido negativa a
    experiência – e talvez fosse outro o destino do café nas nossas regiões
    meridionais.”Oliveira, Vianna. Distribuição Geográfica do cafeeiro no estado do Rio, in “o café no 2ºcentenário de sua introdução no Brasil – Ed.do Departamento Nacional do Café- RJ,1934 vol.I p.80.
    Além disto temos João Maia que diz em sua obra:
    “... feita a sementeira em 1775, antes de 1785, já deviam existir alguns cafezais em
    efetiva produção. Corrobora-se isto uma informação que nos ministrou um antigo
    morador do Bananal, província de São Paulo, homem de mais de cem anos de
    idade, mas dotado ainda de boa reminiscência -- Joaquim Pinto -- ,o qual afirmara
    que a primeira plantação de café naquele município fora feita em 1782, na fazenda
    de um tal Bahya36, morador de Resende, que remeteu daqui sementes .” O tal Bahya é o fazendeiro Antonio Bernardo Bahya, que tinha propriedade em Resende e Bananal e acaba fazendo de Bananal a primeira cidade Paulista a plantar café vindo a ser uma das maiores produtoras do Brasil, ele tinha sus terra em Resende na freguesia de São Luiz Beltrão,sesmaira doada pelo capitão-mor e depois Gen.Joaquim Xavier Curado em nome do vice-rei.Maia, João de Azevedo Carneiro. do Descobrimento do Campo Alegre À Criação da Vila de Resende. [ S.Ed]
    , 1886.p.59
    Assim Vassoura,Valença e Barra Mansa(desmembra-se de Resende somente em 1832)vão receber as mudas de café bem depois suas produções são mais tardias do que Resende e Bananal.

    Abraço,
    Prof.Julio Cesar Fidelis Soars

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