quarta-feira, 14 de abril de 2010

MARIA AUGUSTA - A FILHA DO VISCONDE



A biografia de Maria Augusta de Oliveira Borges ainda é estudada por pesquisadores e historiadores numa linha que não mais se justifica. É algo que resultou em poético, heróico, lendário e, por isso mesmo, anda na contramão da história. Isso impossibilitou a observação mais profunda da personagem dentro de um contexto de época, qual seja o do universo feminino no final de século XIX, e que tem correspondentes atuais na forma de um legado histórico-cultural perceptível em suas nuances. O que se fez foi uma sucessão de narrativas em nada esclarecedoras sobre sua personalidade e do seu papel num ambiente patriarcal que controlava a prática social, mas contrariamente a subvertia, escamoteando a realidade do que acontecia dentro do seio da família e na sociedade como um todo.
Desse modo, é saudável uma composição historiográfica ampla para a personagem, verificando cenário, contrastes e permanências , analisando a multiplicidade dos fatos do cotidiano, do geral para o particular e vice-versa, a exemplo dos estudos da micro-história, e do estudo de gênero, com marcos teóricos revisionistas, como os trabalhos de Mary Del Priory, Eny Mesquita de Samara, Leila Mezan Algranti, Maria Odila da Silva Leite, Ronaldo Vainfas, Eliana Maria Rea Goldschmidt, Maria Beatriz Nizza da Silva, Ciro Flamarion, Carlo Ginzburg e, mesmo, Gilberto Freyre, sociólogo que descortinou para o Brasil as profundas raízes da sexualidade brasileira, e o escritor Nelson Rodrigues, que nas suas crônicas relata uma sociedade carioca ainda com características herdadas do século XIX, em que a lascívia, tanto de homens quanto de mulheres, aparecem perenes no tempo e no espaço e as protagonistas se misturam nos papéis de donzelas heroínas, transgressoras ou submissas, numa sociedade flexível e incoerente na prática do bom senso moral e ético.
Portanto, a história da personagem interiorana que buscou novas experiências precisa ser compreendida dentro desse contexto mais amplo, tomando como base objetiva as características sociais, políticas e econômicas do ambiente que viveu, procurando enxergar com racionalidade o seu comportamento e a reação daquela sociedade diante dos fatos, separando o espetáculo do mito da cena comum.
Nascida em Guaratinguetá, em 31 de dezembro de 1864, no seio de uma família pseudo-aristocrática, formada por Francisco de Assis Oliveira Borges e Amélia Augusta Cazal - os Viscondes de Guaratinguetá - Maria Augusta teve sua infância interrompida pelo casamento e depois pela morte prematura, e tornou-se, ao longo de mais de cem anos, num ícone urbano-regional, conhecido como a mitológica “loira do banheiro”.
Seu pai, pelo olhar objetivo e ótimo relacionamento comercial, como num golpe planejado de sorte, conseguiu fazer grandes e inúmeros negócios na região, com interesses voltados para as famílias mais destacadas economicamente, casando-se, inclusive, a primeira vez, com a viúva Lopes Salgado, da vizinha Lorena, e com isso pode dar inicio a uma carreira de sucesso, alcançando, por compra, em 1854, o título de barão e, em 1869, o de Visconde de Guaratinguetá. Era um autêntico e austero senhor com a marca do mandonismo e do clientelismo extensivo à família, aliados, agregados e escravos, numa cidade onde a maioria era a população pobre e de diferentes atitudes de costume. E, desse modo, com uma infância restrita, embora participante distante dos acontecimentos que cercavam os relacionamentos familiares, Maria Augusta foi imposta a um casamento arranjado que pouco oferecia de duradouro, principalmente porque, além de uma personalidade com certeza forte, havia tido experiências de viver com escravos, sem nenhum preconceito e com primos, primas, irmãos e irmãs mais velhos que lhe trouxeram uma visão diferente do mundo, o qual seja de oportunidade de sentir a vida em outro plano e dentro de suas possibilidades de plenitude, livre das convenções nem sempre cumpridas naquele período.
As mulheres neste período já tinham participação acentuada naquele momento da história paulista, assim como também por várias vezes, e a pesquisa histórica tem demonstrado isso, haviam praticados atos nem um pouco recomendáveis, desde o século XVII. Existiram situações em diversos patamares, desde a mulher comandando os negócios da família, criando filhos, sendo comerciantes e independentes economicamente, até mulheres na prostituição declarada ou “moças direitas” com filhos em estado de solteiras, e vítimas consentidas de concubinato, lascívia e crimes contra maridos.
Quando saiu da casa de seu marido, Conselheiro Dutra Rodrigues, na cidade de São Paulo, em 25 de março de 1884, levando as jóias, para nunca mais voltar, ela apenas poderia estar tomando uma decisão de lugar-comum, igual a inúmeras mulheres das camadas mais inferiores e de menor importância no contexto social das suas famílias. Possivelmente desejava somente vida própria, feliz e alegre, diferente das limitações femininas impostas pela família e pelo marido, que foi considerado a grande vítima dessa história. Assim, o que relativamente era banal tornou-se incoerentemente lascivo, tanto que o mesmo marido, embora pudesse considerá-la leviana, esperou muito tempo para efetivar o processo de divórcio religioso, mostrando, dessa forma, a flexibilidade dos costumes e a sua disposição em perdoar um suposto pecado. Além disso, corroborando a idéia de uma reconciliação futura, e dispondo de informações sobre a vida da mulher na Corte, ele a manteve com uma pensão de 500$000 por mês. E, mesmo assim, a atitude de Maria Augusta parecia denotar uma disposição contrária, tanto que nem a própria mãe, que foi pessoalmente ao Rio de Janeiro, conseguiu que ela desistisse do seu intento, o que provocou desânimo por parte da mesma, que retornou a Guaratinguetá, deixando-a amparada financeiramente .
Verifica-se, então, que atos tão escandalosos, como dito na época, poderia não ser fato tão repudiado ou desagradável a ponto de se instituir como algo assombroso e de análise tão equivocada como fizeram seus contemporâneos e os atuais pesquisadores.
Maria Augusta já havia estado no Rio de Janeiro e em Paris, e retornado, se estabelecendo na Rua Taylor, na capital federal, onde conheceu o glamour que uma cidade interiorana e a cidade de São Paulo (onde morou com o marido) não ofereciam em termos de divertimento, coisa que não teve na casa paterna, mas que, talvez, conhecia por ouvir contar.
Estas duas cidades, Rio e Paris, era o sonho dourado de homens e mulheres do período, principalmente aqueles com conceitos e idéias avançadas, como era o caso de Maria Augusta, ao contrário de seu marido, de perfil reservado, atento a sua profissão de advogado e mestre de Direito Romano na Faculdade de Direito do Largo de São Francisco e que possivelmente não tinha vida social como almejava a esposa.
Ao contrário, a imperial capital do Brasil oferecia muito mais, era celeiro social de novidades, além de ser o centro das decisões políticas e econômicas, onde as festas tinham um caráter bem diversificado, servindo para negócios, entretenimentos vários e relacionamentos sociais mais amplos, abrindo um espectro mais forte na vivacidade de uma mulher que praticamente acabara de sair da adolescência, permitindo conhecer pessoas muito mais interessantes, segundo os seus desejos. O que deve ter atraído homens de destaque para o seu lado, como o caso transmitido oralmente sobre sua amizade com o Conde de Figueiredo, figura importante do império e da república, financista e especulador da bolsa.
Quando chegou ao Rio de Janeiro pela primeira vez, pouco ficou, mas a tempo de ter como sua hospede sua própria mãe, que segundo o processo de divórcio, veio até ela para dissuadi-la do intento da separação, e não conseguindo, ao que as entrelinhas deixam observar, acabou voltando para Guaratinguetá.
Portanto, a biografia de Maria Augusta necessita ser escrita de forma coerente, com base histórica, possibilitando, assim, entender o universo feminino da época sem a conotação pejorativa que, por vezes, reitera uma realidade deturpada.

5 comentários:

  1. Diego, muito legal. Vida longa a este trabalho.
    Grande abraço
    Sônia Gabriel

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  2. Um trabalho, uma pesquisa que vem sendo desenvolvida a um tempo considerável e que tem tomado uma dimensão digna de um livro.
    Meus parabéns...

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  3. Diego, que lindo seu blog, vou indicá-lo para meus amigos vilaboenses. Parabéns! a cultura nacional só tem a ganhar com o História do Vale. Parabéns

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  4. Professor Diego.

    A história de Maria Augusta é um exemplo da sociedade cafeeira do final do século XIX, principalmente em seu aspecto menos conhecido e difundido.
    Pode-se imaginar que sua história é singular, mas é representativa e comum naquele período, como anteriormente. São facetas que nos fazem enxergar uma outra história do Vale. É muito bom artigos indiciários como o seu, que fazem repensar o cotidiano das alcovas residenciais e os subterrâneos do pensamento do homem comum naquele momento.

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  5. COM certeza essa é uma das melhores Historias sobre o assunto , muito legal.

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