quarta-feira, 21 de abril de 2010

O Visconde de Guaratinguetá


O Visconde de Guaratinguetá, Francisco de Assis Oliveira Borges, que nasceu em 1808 em Guaratinguetá, e era filho do Alferes Inácio Joaquim Monteiro e de sua mulher Ana Joaquina do Amor Divino, e irmão do Vigário Antonio Martiniano de Oliveira e do Arcipreste Joaquim Anselmo de Oliveira.
De origem humilde, foi um dos maiores cafeicultores da região. Começou a trabalhar vendendo produtos da chácara de seu pai, na feira semanal do Largo do Rosário, em Guaratinguetá, e mais tarde, como tropeiro, conduzindo tropas e mercadorias para o Rio de Janeiro e Minas Gerais. Casou-se pela primeira vez com Ana Silveira Umbelinda do Espírito Santo, nascida em Lorena, no dia 22 de junho de 1808, filha do Capitão Francisco Gomes Sandim e de Silveira Inocêncio de Gusmão e viúva do Ajudante João Lopes Salgado Guimarães.
Exerceu os cargos de escrivão de órfãos, promotor público, sargento-mor, sub-delegado de Polícia (1845), Juiz de Paz (1849 a 1852), vereador (1833-1837), vice-presidente da Câmara Municipal no período (1849-1852), Coronel-Comandante da Guarda Nacional de Guaratinguetá (1854), e deputado à Assembléia Legislativa Provincial(1856-1857), pelo Partido Conservador.
Fundou a Santa Casa de Misericórdia de Guaratinguetá e foi seu provedor, em 1854. Protetor do Asilo do Bom Pastor, Inspetor de Obras Públicas, acionista da Estrada de Ferro D.Pedro II, membro da comissão diretora de obras da Matriz de Santo Antonio, Inspetor de Estradas e chefe do Partido Conservador em Guaratinguetá e na região.
Em reconhecimento aos seus relevantes serviços prestado à comunidade, à instrução pública e ao Brasil, recebeu as seguintes condecorações: Cavaleiro Imperial da Ordem Rosa, por decreto de primeiro de dezembro de 1848, Barão de Guaratinguetá, em 1854, Visconde de Guaratinguetá, por decreto de 1867, Grande do Império em 1871, Grande Dignitário da Ordem Rosa em 1877.
Casou-se, pela segunda vez, no dia 5 de junho de 1858, com Amélia Augusta Cazal, batizada em Guaratinguetá no dia 8 de março de 1830, filha do cirurgião-mor Rafael José Cazal, nascido da vila de Cascais, Patriarcado de Lisboa, Portugal e de Marguerite Penel, nascida em Vevey, cantão de Vaud, na Suíça.
O Visconde de Guaratinguetá foi pai de uma prole de 24 filhos, em seus dois casamentos.

Referências:

MOURA, Carlos Eugenio Marcondes de. O Visconde de Guaratinguetá – Um titular do café no Vale do Paraíba. 2. Ed., São Paulo: Studio Nobel, 2002.

PASIN, José Luiz. Os Barões do Café – Titulares do Império no Vale do Paraíba Paulista. Aparecida-SP: Vale Livros, 2001.

Para Saber Mais:

www.valedoparaiba.com/enciclopedia

sexta-feira, 16 de abril de 2010

Fragmentos da História das Cidades de Lorena e Piquete

Lorena e Piquete eram administrativamente ligados. A primeira era a cabeça do termo e a segunda um incipiente bairro surgido ao longo de um caminho. Posteriormente a segunda foi elevada a vila.
A vila de Lorena é uma das mais antigas do vale do Paraíba e o seu povoamento se dá ainda no século XVII, com as primeiras sesmarias doadas na região onde seria o futuro núcleo urbano (COELHO,2004), onde, em 1705, nasceu a Freguesia de Nossa Senhora da Piedade do Gaypacaré (EVANGELISTA,1978), e administrativamente parte do território de Guaratinguetá. Nesse período ficaram conhecidas as famosas roças de Bento Rodrigues Caldeira.
No século XVIII, com o correr do tempo houve um aumento considerável da população, parte dela oriunda de diversas regiões da Capitania de São Paulo, o que fez aumentar seu território, principalmente em direção a serra da Mantiqueira, onde na primeira metade deste século seria muito utilizada a Estrada Geral (ou Real) em direção a Minas que deu dinamismo ao local, principalmente com o transporte e o abastecimento।



Em 1788, o Governador da Capitania de São Paulo – Bernardo José de Lorena, através da portaria de 6 de setembro de 1788, elevou Lorena à categoria de Vila, abrangendo, assim, todo o território desde a sede até os limites do Rio Piraí ou Campo Alegre (Resende).
Em 1799, aparece as primeiras plantações de café na vila, sendo produzidas e exportadas a pequena quantia de 39 arrobas (EVANGELISTA,1978).
A vila de Piquete vai aparecer pela primeira vez como bairro de Lorena em 1828, com 63 casas, 303 habitantes livres e 123 escravos e a sua economia tinha como base a agricultura e o tráfego para escoamento de mercadorias pela estrada da serra de Itajubá. Há que ressaltar que toda a vida do lugarejo passou a orbitar em torno deste caminho. O povoado ganhava fôlego na época das secas, com a possibilidade de melhor acesso aos viajantes, para quase se isolar na estação das águas. Muitos trechos tornavam-se intrasitiáveis e pontes eram levadas pelas enchentes.
A grande produção de café em Lorena vinha desse bairro, em grande número de tropas que transportavam a produção. E isso trouxe desenvolvimento urbano da localidade que, em 20 de dezembro de 1864, conseguiu autorização de Dom Sebastião Pinto do Rego, Bispo de São Paulo, permitindo que fosse construída a capela do bairro, sob a invocação de São Miguel e, em sua elevação à freguesia, em 22 de março de 1875, através do decreto nº10. Em 17 de maio de 1891 foi elevada a categoria de Vila, com a denominação de Vila Vieira de Piquete, em homenagem ao cafeicultor Custódio Vieira da Silva, parente do Visconde de Guaratinguetá, titular das fazendas do Carmo e Fortaleza, localizadas no mesmo território.

Referências

COELHO, Helvécio Vasconcelos de Castro. Vila de Santo Antonio de Guaratinguetá. In: Revista da Asbrap, nº8, 2004
EGAS, Eugênio(org.). Os Municípios Paulistas. São Paulo: Seleção de Obras D´Estado de São Paulo, 1925.
EVANGELISTA, José Geraldo. Lorena no século XIX. São Paulo: Governo do Estado de São Paulo, 1978. (Coleção Paulística, 7)

quarta-feira, 14 de abril de 2010

MARIA AUGUSTA - A FILHA DO VISCONDE



A biografia de Maria Augusta de Oliveira Borges ainda é estudada por pesquisadores e historiadores numa linha que não mais se justifica. É algo que resultou em poético, heróico, lendário e, por isso mesmo, anda na contramão da história. Isso impossibilitou a observação mais profunda da personagem dentro de um contexto de época, qual seja o do universo feminino no final de século XIX, e que tem correspondentes atuais na forma de um legado histórico-cultural perceptível em suas nuances. O que se fez foi uma sucessão de narrativas em nada esclarecedoras sobre sua personalidade e do seu papel num ambiente patriarcal que controlava a prática social, mas contrariamente a subvertia, escamoteando a realidade do que acontecia dentro do seio da família e na sociedade como um todo.
Desse modo, é saudável uma composição historiográfica ampla para a personagem, verificando cenário, contrastes e permanências , analisando a multiplicidade dos fatos do cotidiano, do geral para o particular e vice-versa, a exemplo dos estudos da micro-história, e do estudo de gênero, com marcos teóricos revisionistas, como os trabalhos de Mary Del Priory, Eny Mesquita de Samara, Leila Mezan Algranti, Maria Odila da Silva Leite, Ronaldo Vainfas, Eliana Maria Rea Goldschmidt, Maria Beatriz Nizza da Silva, Ciro Flamarion, Carlo Ginzburg e, mesmo, Gilberto Freyre, sociólogo que descortinou para o Brasil as profundas raízes da sexualidade brasileira, e o escritor Nelson Rodrigues, que nas suas crônicas relata uma sociedade carioca ainda com características herdadas do século XIX, em que a lascívia, tanto de homens quanto de mulheres, aparecem perenes no tempo e no espaço e as protagonistas se misturam nos papéis de donzelas heroínas, transgressoras ou submissas, numa sociedade flexível e incoerente na prática do bom senso moral e ético.
Portanto, a história da personagem interiorana que buscou novas experiências precisa ser compreendida dentro desse contexto mais amplo, tomando como base objetiva as características sociais, políticas e econômicas do ambiente que viveu, procurando enxergar com racionalidade o seu comportamento e a reação daquela sociedade diante dos fatos, separando o espetáculo do mito da cena comum.
Nascida em Guaratinguetá, em 31 de dezembro de 1864, no seio de uma família pseudo-aristocrática, formada por Francisco de Assis Oliveira Borges e Amélia Augusta Cazal - os Viscondes de Guaratinguetá - Maria Augusta teve sua infância interrompida pelo casamento e depois pela morte prematura, e tornou-se, ao longo de mais de cem anos, num ícone urbano-regional, conhecido como a mitológica “loira do banheiro”.
Seu pai, pelo olhar objetivo e ótimo relacionamento comercial, como num golpe planejado de sorte, conseguiu fazer grandes e inúmeros negócios na região, com interesses voltados para as famílias mais destacadas economicamente, casando-se, inclusive, a primeira vez, com a viúva Lopes Salgado, da vizinha Lorena, e com isso pode dar inicio a uma carreira de sucesso, alcançando, por compra, em 1854, o título de barão e, em 1869, o de Visconde de Guaratinguetá. Era um autêntico e austero senhor com a marca do mandonismo e do clientelismo extensivo à família, aliados, agregados e escravos, numa cidade onde a maioria era a população pobre e de diferentes atitudes de costume. E, desse modo, com uma infância restrita, embora participante distante dos acontecimentos que cercavam os relacionamentos familiares, Maria Augusta foi imposta a um casamento arranjado que pouco oferecia de duradouro, principalmente porque, além de uma personalidade com certeza forte, havia tido experiências de viver com escravos, sem nenhum preconceito e com primos, primas, irmãos e irmãs mais velhos que lhe trouxeram uma visão diferente do mundo, o qual seja de oportunidade de sentir a vida em outro plano e dentro de suas possibilidades de plenitude, livre das convenções nem sempre cumpridas naquele período.
As mulheres neste período já tinham participação acentuada naquele momento da história paulista, assim como também por várias vezes, e a pesquisa histórica tem demonstrado isso, haviam praticados atos nem um pouco recomendáveis, desde o século XVII. Existiram situações em diversos patamares, desde a mulher comandando os negócios da família, criando filhos, sendo comerciantes e independentes economicamente, até mulheres na prostituição declarada ou “moças direitas” com filhos em estado de solteiras, e vítimas consentidas de concubinato, lascívia e crimes contra maridos.
Quando saiu da casa de seu marido, Conselheiro Dutra Rodrigues, na cidade de São Paulo, em 25 de março de 1884, levando as jóias, para nunca mais voltar, ela apenas poderia estar tomando uma decisão de lugar-comum, igual a inúmeras mulheres das camadas mais inferiores e de menor importância no contexto social das suas famílias. Possivelmente desejava somente vida própria, feliz e alegre, diferente das limitações femininas impostas pela família e pelo marido, que foi considerado a grande vítima dessa história. Assim, o que relativamente era banal tornou-se incoerentemente lascivo, tanto que o mesmo marido, embora pudesse considerá-la leviana, esperou muito tempo para efetivar o processo de divórcio religioso, mostrando, dessa forma, a flexibilidade dos costumes e a sua disposição em perdoar um suposto pecado. Além disso, corroborando a idéia de uma reconciliação futura, e dispondo de informações sobre a vida da mulher na Corte, ele a manteve com uma pensão de 500$000 por mês. E, mesmo assim, a atitude de Maria Augusta parecia denotar uma disposição contrária, tanto que nem a própria mãe, que foi pessoalmente ao Rio de Janeiro, conseguiu que ela desistisse do seu intento, o que provocou desânimo por parte da mesma, que retornou a Guaratinguetá, deixando-a amparada financeiramente .
Verifica-se, então, que atos tão escandalosos, como dito na época, poderia não ser fato tão repudiado ou desagradável a ponto de se instituir como algo assombroso e de análise tão equivocada como fizeram seus contemporâneos e os atuais pesquisadores.
Maria Augusta já havia estado no Rio de Janeiro e em Paris, e retornado, se estabelecendo na Rua Taylor, na capital federal, onde conheceu o glamour que uma cidade interiorana e a cidade de São Paulo (onde morou com o marido) não ofereciam em termos de divertimento, coisa que não teve na casa paterna, mas que, talvez, conhecia por ouvir contar.
Estas duas cidades, Rio e Paris, era o sonho dourado de homens e mulheres do período, principalmente aqueles com conceitos e idéias avançadas, como era o caso de Maria Augusta, ao contrário de seu marido, de perfil reservado, atento a sua profissão de advogado e mestre de Direito Romano na Faculdade de Direito do Largo de São Francisco e que possivelmente não tinha vida social como almejava a esposa.
Ao contrário, a imperial capital do Brasil oferecia muito mais, era celeiro social de novidades, além de ser o centro das decisões políticas e econômicas, onde as festas tinham um caráter bem diversificado, servindo para negócios, entretenimentos vários e relacionamentos sociais mais amplos, abrindo um espectro mais forte na vivacidade de uma mulher que praticamente acabara de sair da adolescência, permitindo conhecer pessoas muito mais interessantes, segundo os seus desejos. O que deve ter atraído homens de destaque para o seu lado, como o caso transmitido oralmente sobre sua amizade com o Conde de Figueiredo, figura importante do império e da república, financista e especulador da bolsa.
Quando chegou ao Rio de Janeiro pela primeira vez, pouco ficou, mas a tempo de ter como sua hospede sua própria mãe, que segundo o processo de divórcio, veio até ela para dissuadi-la do intento da separação, e não conseguindo, ao que as entrelinhas deixam observar, acabou voltando para Guaratinguetá.
Portanto, a biografia de Maria Augusta necessita ser escrita de forma coerente, com base histórica, possibilitando, assim, entender o universo feminino da época sem a conotação pejorativa que, por vezes, reitera uma realidade deturpada.